Quando a tristeza não foi embora
Crônicas de Quem Respira
Quando a tristeza não foi embora
Texto de Aline Bitencourt
Anos atrás, vivi uma experiência que ainda reconheço em mim.
Havia alegria, encontros, afeto, vontade de compartilhar. E havia também uma tristeza que aparecia sem pedir licença.
Quando ela vinha, eu respirava. A sensação diminuía, às vezes desaparecia, e eu seguia.
Até que voltava.
Por algum tempo, não dei muita importância àquela tristeza. Talvez fosse apenas um incômodo passageiro, que eu não precisava alimentar.
Mas ela continuava voltando.
Então, em vez de tentar fazê-la passar, resolvi ficar um pouco com ela.
E apareceu raiva.
Vontade de mandar algumas pessoas para bem longe. A sensação de que certas situações eram injustas, de que eu estava cansada, magoada, decepcionada. Vieram pensamentos nada bonitos, nenhuma frase elevada e nenhuma conclusão sábia.
Eu chorei.
E ouvi.
À medida que deixava tudo aquilo existir, fui me acalmando.
Não porque eu tivesse encontrado uma resposta nem porque a tristeza revelasse algum grande significado escondido.
Talvez eu só precisasse parar de tratá-la como sinal de que havia algo errado comigo.
Nem sempre estar triste significa que há um problema a ser consertado.
Às vezes, a tristeza apenas acompanha o que estamos vivendo.
Hoje, quando lembro dessa experiência, percebo que eu estava tentando cuidar de mim retirando o desconforto do caminho.
E, naquele momento, cuidar de mim foi justamente o contrário.
Foi não ir embora quando eu estava triste, irritada, cansada e pensando coisas que preferia não sentir.
Respirar não precisou resolver nada.
A respiração apenas me deixou ali.
Comigo.
Talvez nem tudo o que sentimos precise ser superado, compreendido ou transformado.
Às vezes, um sentimento só quer espaço para existir sem ser imediatamente corrigido.
Naquele dia, a tristeza voltou.
E, pela primeira vez, eu não pedi que ela fosse embora.