Como a dúvida e o medo surgem no dia a dia?

Como a dúvida e o medo surgem no dia a dia?

O medo e a dúvida são dois dos afetos inerentes à vida humana.

Só que, de algum jeito, acabamos aprendendo que eles deveriam decidir tudo por nós, como se fosse natural viver sempre inseguros e vulneráveis.

Isso até rende músicas e poemas bonitos, mas é importante perceber quando a gente está apenas seguindo os seus rastros.

Nossa necessidade de consumo está muito atrelada aos medos e dúvidas sistematicamente construídos em anos de história.

O marketing aprendeu a tocar nessas frestas psíquicas de inseguranças, cenários de risco, sensações de insuficiência para transformá-las em produtos.

Os exemplos são muitos: no campo da saúde, planos e seguros são vendidos a partir da ideia de que algo repentino e grave pode acontecer a qualquer momento. E quem não acredita cem por cento nisso é rotulado de irresponsável ou imaturo.

Assim como na previdência, o futuro é um lugar onde a falta de planejamento levaria inevitavelmente a uma velhice pobre ou dependente.

A indústria da estética e do fitness, por sua vez, opera mais pela dúvida do que pelo medo direto. Ela sugere que nossa aparência natural não é suficiente. Sempre há algo a ser corrigido.

E isso não é diferente com a alimentação, que explora um ciclo de consumo baseado no receio de “sair da linha” que se disfarça de autocuidado.

Na esfera digital, empresas vendem a ideia de que estamos sendo observados, sempre à mercê de ataques invisíveis.

Sem falar que a tecnologia também carrega uma forma refinada de pressão: aparelhos perfeitamente funcionais são apresentados como obsoletos, dando a impressão de que estamos ficando para trás.

No meio de tudo isso, a mídia alimenta um estado constante de vigilância: crises e ameaças financiam anúncios baseados em medo.

No fundo, a lógica é simples: primeiro, cria-se a sensação de insuficiência, vulnerabilidade ou risco. Depois, oferece-se um produto como solução para esse desconforto. É um ciclo.

Diante disso, a dúvida e o medo são inimigos a serem eliminados?

A resposta é não, porque eles refletem aspectos que surgem na jornada de consciência de qualquer indivíduo.

Através da dúvida, ele pode questionar suas crenças e liberar padrões.

De forma semelhante, o medo pode ajudar a sinalizar onde ele tem mais resistência e apegos.

O que o medo e a dúvida não devem é definir a identidade de alguém.

Quando o indivíduo passa a se identificar com tais emoções, abre-se um campo de conflitos internos onde haverá muito controle e julgamento.

Ao mesmo tempo, o espaço para auto-observação é suprimido.

E a voz da sua própria experiência ficará silenciada.

LH Albuquerque

Reflexões

Se quiser levar isso adiante, fique à vontade.

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