No meio da multidão
Crônicas de Quem Respira
No meio da multidão
Texto de Aline Bitencourt
Anos atrás, escrevi um texto chamado Tudo São Mudanças. Naquele momento, aquelas palavras eram um basta.
Eu estava cansada do peso, dos lamentos e das velhas heranças que pareciam manter tantas pessoas presas.
Ainda reconheço algo meu naquele texto. Mas, ao relê-lo hoje, percebo também uma distância.
Como se a liberdade dependesse apenas de uma decisão individual. Como se bastasse compreender que tudo muda para deixar para trás aquilo que nos aprisiona.
Hoje, já não vejo dessa maneira.
A mudança aconteceu primeiro dentro de mim.
Não houve um acontecimento que transformou tudo de uma vez. Também não foi simplesmente a passagem do tempo.
Ela foi acontecendo silenciosamente.
Pouco a pouco, algumas crenças perderam a força. Certas atitudes deixaram de fazer sentido. Comecei a enxergar de outra maneira aquilo que antes parecia ter uma única explicação.
Talvez tudo tenha começado com um “chega”.
Mas nenhuma mudança acontece fora da realidade em que vivemos.
Hoje, minha vida é confortável em muitos aspectos. Tenho condições para parar, observar e fazer escolhas que talvez não estejam disponíveis para todas as pessoas.
Existem diferentes realidades.
O que, visto de longe, pode parecer apego ao sofrimento, às vezes é falta de apoio, segurança ou oportunidade.
A possibilidade de mudar pode nascer dentro de alguém. Mas também precisa encontrar algum espaço para se tornar movimento.
Quando uma pessoa é assistida e encontra novas possibilidades, aquilo que parecia uma prisão inevitável pode começar a mudar — por dentro e por fora.
Por isso, hoje não quero observar a multidão à distância. Quero estar no meio dela.
Posso me posicionar.
Posso discordar.
Posso sentir medo, indignação ou esperança.
Fazer parte da multidão não significa estar perdida nela.
Também não significa abandonar aquilo que percebo para seguir o movimento de todos.
Posso estar entre as pessoas e saber voltar para mim.
Minha essência não está separada dessa experiência. Não está escondida em algum lugar silencioso, esperando que eu consiga escapar do mundo.
Ela está aqui também.
No corpo que reage.
Na pessoa que escolhe.
Na cidadã que participa.
No meio da multidão.
Continuo acreditando que, em essência, está tudo bem.
Mas isso não transforma a injustiça em ilusão. Não faz do sofrimento uma incapacidade de despertar. E não torna menos necessárias as mudanças que precisam acontecer ao nosso redor.
Talvez algumas transformações comecem no instante em que já não conseguimos continuar da mesma maneira.
Outras precisam acontecer fora para que mais pessoas possam escolher.
E muitas nascem justamente do encontro entre as duas.
No meio da multidão.